Por que estamos alfabetizando as crianças tão cedo?

Há dias converso com diferentes pessoas e peço para que contem como vivenciaram o processo de Alfabetização em suas vidas. Uns dizem guardar lembranças doces e cheirosas. Sabe daquelas que te remetem ao perfume da professora ou a determinada flor perto da janela da sua sala? Outras dizem não terem boas lembranças. Remetem-se a frieza do método ou outras vezes a indiferença da professora. Outros ainda, não souberam falar. Talvez por ainda não ter elaborado o que isso significou em sua vida.

Vamos pensar na Alfabetização como algo que não tem hora para começar e tão pouco terminar? Desde que nascemos estamos inseridos numa cultura letrada. Provavelmente um adulto foi nos mostrando o mundo, por meio do seu olhar. Quero falar aqui dos sentidos que vamos atribuindo pela vida a fora.

Já lá nos primórdios do nosso primeiro jogo de conversa com nossos pais, no qual o nosso balbuciar foi compreendido e traduzido, a linguagem se faz presente e iniciamos não só uma brincadeira de imitação, mas um poderoso vir a ser. Depois um tanto mais crescidos, vamos aprimorando o nosso vocabulário, seja por conta da atribuição que os adultos dão ao nosso falar ainda rudimentar ou pelas histórias que são contadas, as músicas apresentadas e um sem fim de acontecimentos na vida da criança.

De posse de um vocabulário que permite articular e construir frases, outra poderosa descoberta, o traço, mesmo que ainda rudimentar, é capaz de produzir imagens, ou seja, os desenhos, que são traduzidos ou não e adquirem, portanto outra vez, significado.

E assim segue a criança em sua infância. Permeada pela brincadeira, pelas descobertas acerca do mundo e das pessoas que a cercam. Sei que não é assim para uma grande maioria da população mundial, mas sou uma educadora que não perde o sonho e o desejo de que todas as crianças tenham esse direito assegurado.

Mas voltando a aquela criança plena em suas descobertas sobre o mundo… E o mundo é tanta coisa… pode ser o seu corpo se modificando e dando mais autonomia pra se locomover, pode ser aquele buraquinho da porta que seu dedinho cabe tão direitinho, pode ser aquele ruído que o gato fez ronronando… Enfim, é grande para dedéu.

Em meio a tudo isso, alguém inventa que você já brincou o suficiente, e que é chegada a hora de se Alfabetizar. Claro que isso será muito fácil de acontecer, pois a crianças estão prontas e ávidas para receber o novo. Mas a pergunta que fica pairando é: por que estamos alfabetizando os pequenos tão cedo?

Parece que o ler e escrever em nossa sociedade adquiriu um corpo maior que a mão que segura o lápis.

Gosto muito de Emília Ferreiro e da Psicogênese da Língua Escrita, de sua autoria e transcrevo da obra um trecho que acho que vem a calhar. “Por trás da mão que pega o lápis, dos olhos que olham, dos ouvidos que escutam há uma criança que pensa. Essa criança que pensa não pode ser reduzida a um par de olhos, a um par de ouvidos, e a uma mão que pega o lápis. Ela pensa o propósito da língua.”

Sim. As crianças muito antes de serem alfabetizadas “formalmente” já estão lendo o mundo que as cerca. Ao lerem rótulos de produtos que consomem, outdoors, ao recontarem histórias e filmes que reveem um milhão de vezes, ao serem capazes de entender que água do universo é a mesma que circula desde que surgiu o mundo e tantas outras maravilhas que pensam e falam, fica evidente que reduzi-las a métodos é no mínimo um desperdício.

Que ao seu tempo, com respeito à infância e com delicadeza, a criança seja apresentada ao mundo do Letramento, de maneira significativa, ou seja, com atribuição de sentido. Que seja como aprendemos a andar e falar. Natural, essencial e libertador. Que sejam respeitados aspectos relacionados com a neurologia e a maturidade.

Que seja bom e suficiente para deixar boas lembranças.

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